Vivemos tempos estranhos, em Portugal, na Europa e até do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos. A política parece ter-se tornado um espetáculo, e muitos assistem sentados, entretidos ou alheios, como se não estivesse em jogo o futuro de todos nós.
Em Portugal, vemos o crescimento de discursos populistas, partidos que prometem mundos e fundos, com soluções simples para problemas complexos. Parece que o povo se esqueceu do que foi viver em ditadura. Parece que já ninguém se lembra que a liberdade que hoje temos foi conquistada com sacrifício, com coragem e com sangue. E o mais preocupante é que muitos, especialmente os mais jovens, parecem não ter qualquer noção do que significou viver sem liberdade de expressão, sem eleições livres, sem direitos.
Na Europa, vemos fenómenos semelhantes. Movimentos extremistas crescem, baseados no medo, no ódio ao “outro”, e em promessas vazias que, na prática, são impossíveis de concretizar. Nos Estados Unidos, Trump continua a reunir apoios mesmo depois de tudo o que se sabe, como se a verdade já não tivesse valor.
Vejo crescer partidos que alimentam o medo, o ódio, que nos prometem soluções simples para problemas que exigem diálogo, esforço, humanidade. E fico triste. Triste porque parece que já ninguém se lembra do que foi viver em ditadura. Do que foi não poder falar livremente, não poder escolher, não poder ser.
Será que o povo é assim tão ingénuo? Ou será que está cansado, desiludido, e por isso agarra-se à primeira voz que grita mais alto?
Seja qual for a resposta, há uma coisa que me parece clara: precisamos de literacia política. Urgente. Nas escolas, nas casas, nas conversas entre amigos. Os jovens deviam chegar aos 18 anos com uma noção clara do que é votar, do que está em jogo numa eleição, do que significam as decisões que tomamos — ou deixamos outros tomar por nós.
Porque não começamos a preparar os jovens desde cedo? Porque não há nas escolas uma verdadeira educação para a cidadania, onde se fale de direitos, de deveres, de ética, de como funciona o sistema político, de como avaliar promessas, de como distinguir um líder de um manipulador?
Quando um jovem faz 18 anos e recebe o direito de voto, deveria já ter ferramentas para compreender o peso da sua escolha. Votar não é só um direito, é uma responsabilidade. E enquanto não houver literacia política, continuaremos a ver votos dados com base em frases feitas, em vídeos virais nas redes sociais, ou em revoltas mal explicadas.
A memória é fraca, sim. Mas pode — e deve — ser alimentada. Pela educação, pela conversa, pelo exemplo.
Porque liberdade sem consciência… é liberdade em risco.
Precisamos de cidadãos atentos. Porque a liberdade nunca está garantida — conquista-se todos os dias.

“A democracia morre quando a memória adormece.”
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